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Experiência sensorial com o livro Cangalha do Vento: relato de uma leitora

Relato de uma leitora

28/11/2020 18h08
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Por: Redação Fonte: Redação
Experiência sensorial com o livro Cangalha do Vento: relato de uma leitora

Sou leitora compulsiva. Leio tudo que tenho à vista. Além dos livros, gosto de ler o mundo, as pessoas. Não entendo e não pretendo fazer crítica literária. O objetivo aqui é trazer a minha experiência sensorial, fruto da degustação prazerosa de um livro.

Ontem recebi o livro Cangalha do Vento, de autoria do meu primo Luiz Eudes, Luizinho, como costumo chamar. Logo que a primeira edição foi lançada combinamos de fazer um chá literário aqui em Salvador, na escola em que trabalho como coordenadora pedagógica do Ensino Médio. Teríamos uma tarde de autógrafos e uma roda de conversa. Mas, em tempos de pandemia, o projeto ficou engavetado. Ao saber da segunda edição do livro logo reclamei o meu. Não queria esperar o fim da pandemia para poder lê-lo. Assim, de imediato, como sempre, fui atendida. 

Iniciei a leitura no meu horário habitual, lá pelas 8 horas da noite. Costume que ensinei às minhas duas filhas. Como boa viciada em livros, começo por explorar a capa. A textura, as cores, a imagem, o tipo de letra, os textos da contracapa, o cheiro das páginas. Tudo desperta interesse.

Logo ao abrir o livro deparo-me com uma carinhosa dedicatória que remete aos nossos tempos de adolescência e a amizade que sempre houvera. Luizinho sempre foi um primo muito querido e dividimos muitas experiências literárias, mesmo em uma época na qual ler não era prioridade. Lembro-me que fui leitora do esboço do seu primeiro livro, quando eu ainda morava no centro da cidade, aqui em Salvador, faz mais de 25 anos. O escrito em páginas de papel ofício, recebido num envelope pardo, endereçado à prima Anna Lu, como ele me chama, à Rua Marujos do Brasil, bairro do Tororó. E por falar nesse esboço de livro, nem sei se foi publicado.

Bem, voltando ao Cangalha do Vento, leio a ficha catalográfica como faço ao ler qualquer livro. A capa é de Allan Oliveira, um outro primo. Allan e eu só nos tornamos amigos na vida adulta, através dos meus dois irmãos, Rodrigo e Gabriel. Uma pessoa generosa, inteligente e brincalhona. Allan é primo pela família materna e casou-se com Kathy, minha prima pela família paterna. Haja parentesco!

A revisão literária é do meu tio-amigo, Tom Torres, meu guru. Tom me iniciou nos prazeres da vida profana. Foi com ele que conheci o carnaval de Salvador, os shows nos barzinhos da Pituba, tomei “caldo” nas ondas da Praia da Paciência, no Rio Vermelho. Foi ele quem me ensinou a flertar com os rapazes, a usar os talheres à mesa, a gostar de ler até bula de remédio. Eu lia os seus contos recém saídos da máquina de escrever. E como ele mesmo conta, eu servia de termômetro. Uma espécie de crítica literária infanto-juvenil.

As ilustrações de Samuel Costa. Eu não o conheço, mas sei que é parente. Filho da prima Maria Helena, sobrinho da prima Zete. Ou seja, o livro Cangalha do Vento vai muito além de uma obra literária, é um Curriculum Vitae familiar.

Parabenizo a todos os envolvidos no projeto e publicação da obra. Barrabaz, que fez a revisão textual. Abimael Borges, que escreveu as orelhas do livro. Marcelo Torres, outro primo e amigo, pela escrita do pós-texto Cangalha das Memórias. Um texto primoroso. Pedro Marcelino, um amigo de longas datas. Que saudade das conversas com Pedro na época em que eu trabalhava na Casa da Cultura de Alagoinhas, como secretária de Iraci Gama! Pedro marcou presença no pós-texto da 2ª edição. Fábio Bahia, autor do Prefácio à Primeira Edição. Isa Ueda e Tonho do Paiaiá, também presentes no pós-texto. Não conheço Isa, e Tonho eu não conheço pessoalmente, mas, acompanho o trabalho nas redes sociais e sei que é amigo da minha família Torres. Vale considerar que fiquei encantada com o seu texto Maestria é Maestria. Uma escrita verdadeiramente poética.

Bem, continuando a degustação página a página. A Cangalha das Metáforas, traz uma breve elucidação sobre o título da obra e o contexto psicossocial retratado. Tom Torres dá um tom de ludicidade ao texto. Perfeito!

E, finalmente, na página 15, chega Luiz Eudes. Logo de início percebe-se, estampada claramente, a inspiração trazida por seu primo, meu tio, o imortal Antônio Torres, pioneiro na literatura sobre as temáticas da “Nossa” Terra, o Velho Junco. A exemplo de “Essa Terra”, de Antônio Torres, Eudes introduz com a temática da morte e o percurso da volta de um personagem num caminho inverso ao êxodo rural. A volta daquele que foi para São Paulo, como tantos outros, em busca de uma vida melhor, que ao perceber que a única mudança é a posição geográfica e a saudade da família e do lugar que o pariu, retorna.

Luiz Eudes desperta as minhas memórias afetivas. Aquelas que afetam tanto positiva quanto negativamente os registros do meu arquivo de experiências de referência. Uma experiência sensorial nostálgica. Por que me identifico tanto com os cenários e as experiências dos personagens? Talvez por ter vivenciado um pouco, ou muito, de tudo isso.

Reconheço alguns personagens, a exemplo de seu Durval, irmão do meu avô Irineu. Zé Grosso, dono do Clube Social que eu frequentava ao passar férias no Junco. Maria de Venâncio, cantora do coral da igreja que morava vizinha a minha avó Anita. Zé Dedão e Dona Lira e a pensão familiar localizada na praça da igreja. Zé da Perninha e sua Botica. Dentre outros. Um misto de realidade e ficção, talvez.

Bem, com o avançar das páginas e das horas o envolvimento com o livro só aumenta. Difícil parar de ler. E sigo. Penso que para mim e para qualquer leitor ou leitora que viveu ou vive no Junco a experiência com o livro seja mais intensa, visto que, a identificação é inevitável. O livro desperta o resgate de memórias olfativas e gustativas, como o cheiro e o gosto da castanha e do caju; memórias visuais que se relacionam com a emoção frequente de chegar ao topo da Ladeira Grande e avistar a cidadezinha encrostada no vale cinza ou verde, a depender da época do ano; memórias táteis ao sentir o calor provocado pelo sol escaldante dos dias, e a brisa fria noturna acarinhando os corpos; memórias auditivas dos causos sobre pessoas e fenômenos, como a seca e histórias de assombração, por exemplo. Enfim, muito mais do que um livro ou de um curriculum vitae familiar, Cangalha do Vento é um resgate interior de alguém que vive em mim e eu nem desconfiava.

 

Ana Lúcia Cruz

Educadora e psicopedagoga

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