Por Manoel Rosa

Navegando nas mídias sociais, onde procura me integrar de boas energias, ouvi um vídeo de Marcelo Tais sobre qual o papel do humor na nossa sociedade e me deparei com o que sempre questionei desde o inicio: o humor precisa ser o lugar da provocação, do questionamento e da não evangelização – seja ela de qualquer religião.

O tão polêmico episódio de Natal do canal Porta dos Fundos na Netflix levantou uma espécie de julgamento profundo. Sabe a sensação de crucificação do humor? foi assim que interpretei a tal “caça as bruxas”. Como publiquei no meu insta, discordo da utilização de qualquer imagem de maior representação do ser divino de qualquer que seja a religião, tanto Buda, quanto Jesus, os Orixás e Sheeva, eles precisam ser seres respeitados.

No meio do turbilhão de coisas que li sobre o especial, que explora a sexualidade de Jesus, percebi que a “caça as bruxas” possui um perfil bem amarrado, sempre se refere à imagem do Cristiano que não pode ser questionado, que não pode ter contrapontos. Conheço diversos cristãos que cotidianamente cometem desrespeito à religião de matrizes africanas como “pai de chiqueiro”, “mãe de chiqueiro”, “isso é demônio” quando se referem às líderes dos terreiros de candomblé e seus respectivos orixás. Bem como, também existem comentários e ações desrespeitosas contra a imagem dos santos da igreja católica – também cristã.

Aqui em Alagoinhas, por exemplo, o terreiro de candomblé Ilê Asé Oyá L’adê Inan, denunciou à polícia terem sido alvos de intolerância religiosa após um grupo realizar um ato em frente ao local gritando frases como “Satanás vai morrer” e “Vamos invocar Jesus para fechar a casa de Satanás”, além de bater com uma bíblia na porta do terreiro. Não vi o mesmo empenho para combater a intolerância sofrida pela Mãe Rosa de Oyá e todos os integrantes do terreiro.

Para o historiador Gilvan Cruz, o especial é uma comédia retrata os dois lados da moeda não existem isso de censura, falta de respeito é outra coisa. “É desnecessário toda essa repercussão, as histórias estão ai para ser desconstruidas e construídas, são pontos de vistas. Cabe a nós acreditar ou não. O mundo é diverso, tanto cultural quanto religiosamente.”

Sem fazer juízo de valor é necessário interpretar o Especial como uma forma de refletir sobre pontos importantes para o avanço da nossa sociedade no caminho do respeito, não da tolerância. Essa palavra nos coloca num lugar superior e por que precisamos tolerar algo? Precisamos respeitar, afinal, temos os mesmos direitos – ou deveríamos ter.

A reflexão precisa ser feito sobre que sociedade pretendemos construir a partir do fim desta década. Uma cena semelhante encontramos no Auto da Compadecido quando João Grilo se espanta com a cor de Jesus: – Ele acabou de lhe chamar de Manuel (…) Por que não é querendo lhe faltar o respeito, mas eu pensava que o senhor fosse muito menos queimado. Jesus: Eu vim assim para lhe causar comentários.

Esse trecho da obra de Ariano Suassuana “O Auto da Compadecida”, imprime um preconceito de estereótipo racial que levanta a possibilidade de discussões e reflexões sobre a imagem social de Jesus, na época isso incomodou diversos conservadores. O especial nos garante boas risadas, além de aprofundar a discussão do: por que ser gay incomoda tanto?

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