Mulher que fez a prova tirou foto durante o exame para provar fragilidade do concurso (Reprodução)

O Ministério Público da Bahia (MP-BA) iniciou, na manhã desta segunda-feira (15), o depoimento dos participantes do concurso para a Prefeitura de Alagoinhas. As provas foram aplicadas na própria cidade do nordeste baiano e em Salvador. De acordo com o órgão, “as irregularidades apontadas serão apuradas”.

Um dos candidatos que participaram do exame, Roni Muniz, 41 anos, contou que, além de todos os problemas identificados pelos candidatos no momento da aplicação das provas, outras surpresas – desagradáveis – surgiram no momento da divulgação do gabarito.

“Depois que saí da prova, já com o caderno em mãos, fui conferir com o gabarito divulgado pela empresa Nosso Rumo. Os textos das questões indicadas na minha prova não coincidiam com as disponibilizadas na internet. Eu fiz a prova tipo D, mas parece que eles divulgaram os gabaritos trocados”, reclamou ele, que pretende uma vaga para motorista.

Da mesma forma que teve seu gabarito trocado, Roni acredita que os demais candidatos também tiveram o mesmo problema. Por isso, eles buscaram a ajuda do Ministério Público. “O que a gente espera é que a prova realizada seja considerada nula e nos seja dada outra chance para fazer o exame”, explicou.

Já Orlando Sales, 26 anos, que tenta uma vaga para assistente administrativo, disse que as irregularidades tiveram início desde a divulgação do edital do concurso. “Em uma parte, o edital afirmava que o critério para a prova ser realizada em outro município era o número de inscritos ser maior do que o limite comportado por Alagoinhas. No entanto, a cidade tinha vários pontos de provas e, mesmo assim, algumas pessoas prestaram o exame em Salvador”, disse.

Ainda segundo o estudante, os concorrentes não tiveram que apresentar documento com foto nem tiveram a impressão digital coletada no momento da realização da prova. “Isso só comprova a fragilidade do concurso”, ressaltou.

Orlando também destacou que os fiscais de prova eram despreparados e não souberam passar as instruções com precisão. “Muitas pessoas fizeram a prova utilizando relógio ou celular, o que é um absurdo”.

Ao todo, a prefeitura abriu 505 vagas, sendo 97 para contratação imediata e outras 408 para formação de cadastro reserva. A taxa de inscrição custou R$ 44 para os cargos de nível médio e R$ 58 para nível superior. Os salários iniciais variam entre R$ 1.198,47 e R$ 2.715,63.

Desconfiança
Cerca de 100 candidatos para vagas na Prefeitura de Alagoinhas criaram um grupo de WhatsApp, no qual são discutidas estratégias a serem adotadas a partir de agora. De acordo com Roni Muniz, o que todos querem é um novo exame.

Ao concordar com o concorrente, Orlando afirmou que, além da realização de uma nova prova, é esperado que a prefeitura contrate outra empresa para ficar à frente do certame. “A gente percebeu certo descaso e falta de organização por parte dessa empresa, que foi escolhida pela gestão municipal sem que qualquer critério tenha sido divulgado”, disse.

Ainda segundo Orlando, “não houve a menor preocupação com a segurança do exame, uma vez que os candidatos iam ao sanitário desacompanhados, portavam aparelhos eletrônicos, dentre outras irregularidades”. Roni também lembrou que muitas fotos da prova começaram a circular por grupos de WhatsApp ainda durante a realização do exame. “As pessoas fotografaram as questões, o cartão de respostas, sendo que, em qualquer concurso público, não se pode utilizar celular”.

Na noite deste domingo (14), Orlando criou uma petição virtual que pede a anulação do certame. O documento já soma mais de 2 mil assinaturas.

Fotos da prova circularam em grupos de WhatsApp (Foto: Acervo pessoal)

Prejuízos
Como se não bastassem todos os problemas vivenciados pelos cerca de 7 mil candidatos que responderam à prova no turno matutino, de acordo com Orlando, no período da tarde a empresa aplicou a mesma prova realizada pela manhã. “As pessoas que foram fazer a prova à tarde já sabiam os detalhes, as respostas. Elas foram beneficiadas, já que as informações vazaram”, criticou.

Outras queixas de candidatos se referem à proposta de realização de uma “prova em grupo”, em razão da falta lugares para os candidatos que fizeram o exame na Faculdade Santos Antônio, em Alagoinhas. A contadora Flávia Vasconcelos, 32 anos, foi uma das pessoas afetadas com a confusão.

Ela contou que duas salas que iriam funcionar para o concurso estavam fechadas e que os participantes acabaram ficando sem cadeiras para fazer a prova. A solução encontrada foi colocar os participantes para fazer a prova em mesas coletivas, o que eles não aceitaram. “A gente precisou chamar a polícia”, disse.

Outros candidatos ouvidos pela reportagem também se queixaram do material disponibilizados para guardar os pertences pessoais. “Era um saco transparente, sem lacre, semelhante ao que utilizamos para comprar frutas e verduras no mercado”, descreveu Roni Muniz.

Processo instaurado
A prefeitura de Alagoinhas informou que instaurou um procedimento administrativo para apurar as irregularidades denunciadas por participantes do concurso. Em nota, a gestão explica que uma reunião realizada na manhã desta segunda-feira (15) entre os representantes da Comissão de Acompanhamento e Fiscalização do Concurso, das secretarias de Administração, Educação, Governo e Procuradoria Geral do Município determinou que a aplicação da prova será investigado pelo município.

“Todos os relatos e fatos que chegaram ao conhecimento da gestão municipal serão devidamente apurados e integram relatório elaborado pela Comissão de Acompanhamento e Fiscalização do referido concurso”, diz o documento.

A empresa Nosso Rumo foi notificada pela prefeitura de Alagoinhas para apresentar contrarrazões e “garantiu a rigorosa apuração dos casos de divulgação de fotos das provas, objetivando a identificação dos seus autores e imediata desclassificação dos candidatos correspondentes, na forma prevista no edital, sem prejuízo das repercussões civis e criminais incidentes”.

A prefeitura ainda afirmou que o que ocorreu no certame foram “problemas isolados em um dos locais de realização das provas” o que não teria comprometido a realização da prova.

“Todas as etapas e decisões do procedimento de apuração serão oportuna e tempestivamente comunicadas aos órgãos de controle, especialmente ao Ministério Público do Estado da Bahia, e informados à população”, escreveu em nota.

O cronograma do concurso está mantido.

Uma outra nota emitida pela prefeitura anteriormente ainda afirmou que o Instituto Nosso Rumo afirmou que “os critérios de segurança foram rigorosamente adotados na aplicação”. “Com a utilização de lacres nos malotes de cadernos de questões e folhas de respostas, cumprimento do tempo de prova, coleta de três assinaturas do candidato na frente da folha de respostas e controle rigoroso dos cadernos e folhas de respostas, através de formulários assinados por candidatos e outras testemunhas, que acompanham a abertura e o fechamento dos malotes”, diz a prefeitura de Alagoinhas.

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2 COMENTÁRIOS

  1. Sem falar da questão 5 da prova objetiva para auxiliar de classe prova A .A questão dizia que expressão: bater as botas é uma metáfora ,sendo que é um eufemismo. Metáfora compara e afirma.e dizer: bater as botas está suavizado uma expressão.

  2. Os cadernos de prova não foram disponibilizados, nem mesmo os gabaritos foram publicamente disponibilizados, apenas temos acesso via site da empresa e senha pessoal. Então o gabarito e carderno de prova não eram apenas tipos: A, B, C e D???? Será que existiram outros???? Por que essa personalização?????? Como entrar com recurso sem acesso ao caderno da prova????
    Por que as provas e respectivos GABARITOS NÃO FORAM DISPONIBILIZADOS NO SITE PARA TODOS?????????
    Não recolheram relógios digitais, nem alarmes de carro, apenas recolheram um celular de cada e colocaram num plastico transparente, nunca vi nada tão amador.
    Não tinha detector de metais, se alguém tivesse celular na roupa entrava sem problema no banheiro, e nos banheiros estavam entrando mais de uma pessoa ao mesmo tempo….

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