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Deam, em Brotas, teve atendimento afetado por decisão de delegados nessa terça (Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

No mesmo dia em que cerca de 200 delegados de polícia entregaram os cargos na Bahia, o serviço em delegacias especializadas de Salvador já foi impactado. Na Delegacia do Adolescente Infrator (DAI), em Brotas, apenas um agente sentado do lado de fora da unidade. Na sala de espera, por volta das 15h30, quatro pessoas esperavam por uma delegada que despachasse.

Uma delas estava com o filho de 16 anos ao lado. Ele havia sido detido após uma abordagem policial na Engomadeira. Segundo a mãe, o jovem foi liberado após ser ouvido. Mas, faltava a assinatura da delegada.

“Tô aqui desde 10h30. Só falta a delegada assinar a liberação do meu filho. Não vou embora enquanto meu filho não sair daqui”, disse a mulher, que preferiu não se identificar.

Apenas um exemplo do que aconteceu nesta terça-feira (11) após mais de 200 integrantes da cúpula da Polícia Civil da Bahia decidirem entregar os cargos.

O protesto contra a reforma administrativa proposta pelo governador Rui Costa (PT) tem como principal queixa a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que impõe o salário do governador como teto para os servidores públicos.

Delegacias Especializadas
O impacto maior foi nas delegacias especializadas, com cargos comissionados. Em algumas delas os serviços ficaram aquém do que o cidadão espera. Das quatro unidades visitadas pelo CORREIO, apenas uma, a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam), no Engenho Velho de Brotas, funcionava normalmente, ou seja, com delegado titular e plantonista.

Na Delegacia do Adolescente Infrator (DAI), além da mulher que aguardava a delegada para liberar o filho de 16 anos, outras três pessoas esperavam atendimento. O agente policial limitou-se a dizer que a delegada estava na manifestação dos delegados, na Assembleia Legislativa da Bahia (Alba), e que não iria dar qualquer declaração sobre o movimento dos seus chefes ou sobre os serviços na delegacia.

Na Delegacia Especial de Repressão a Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Dercca), também em Brotas, os agentes policias estavam trabalhando, mas a unidade estava sem delegado.

“A gente faz o primeiro atendimento, né? Toma as providências, registra o boletim de ocorrência, expede guias, mas temos nosso limite, né? Tem atribuições que são dos delegados”, disse um dos policiais, que pediu para não ser identificado.

Passava das 16h e a informação era de que a delegada plantonista até foi trabalhar, mas estava em horário de almoço.

As atribuições de um delegado vão muito além de despachar documentos e assinar alvarás de soltura. São eles que coordenam as ações nas unidades e orientam como se darão as investigações.

Sem orientação
Nessa terça-feira, uma família que buscou atendimento na Dercca acabou sem ter a devida orientação. De Alagoinhas, a família denunciou o sumiço de uma jovem de 16 anos. Ela desapareceu desde o dia 3 de dezembro depois de dizer que ia para a escola.

O boletim de ocorrência foi registrado no dia seguinte e nessa terça os policiais fizeram diligências no local. Faltava apenas a confirmação da delegada sobre o dia da audiência. A família do homem que teria desaparecido com a garota foi intimado a depor. 

“Não sabemos agora quais os próximos passos. Só a delegada para dizer e ela não apareceu. Minha sobrinha sumiu com um cara conhecido na áera como bandido”, explicou a tia da menina, Cristiane da Cruz Oliveira.   

O movimento dos delegados mostrou bem o racha que existe entre a categoria dos chefes de polícia e seus subordinados. Apesar de também se sentirem prejudicados com a proposta de reforma administrativa, eles “dão de ombros” para os protestos.

Na Delegacia de Atendimento ao Turista (Deltur), no Centro Histórico, a única agente que atendia na sala de espera disse que sequer estava sabendo do movimento. Ela disse que a delegacia estava sem delegado porque isso já estava previsto no plantão do dia.

Assembleia com cerca de 200 delegados que entregaram cargos em protesto contra PEC do governador (Foto: Divulgação)

Na própria Deam, que nessa terça-feira (11) tinha delegado titular e plantonista, um agente policial não se furtou em destilar críticas ao movimento e aos delegados.

“Quando fazemos nossos protestos, eles boicotam, ameaçam. Pimenta no olho dos outros é refresco”. Na Dercca, outro agente foi na mesma linha.

“Esse movimento só existe porque atinge o bolso deles. Se não fosse isso eles não tavam nem aí”, comentou o policial civil.

Ele criticou principalmente a piora dos serviços do Planserv. “O Planserv tá 1.000% pior. Para você conseguir marcar uma consulta é uma confusão. Tenho uma cirurgia de hérnia para fazer e não consigo”, denuncia.

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