Preço da carne deve subir 15% na Bahia por conta das chuvas irregulares

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O cenário é desolador. São mais de 60 mil hectares de lavouras perdidas nos municípios de Adustina e Paripiranga, dois dos maiores produtores da região Nordeste da Bahia. A perda na safra de milho chega a 95% da área plantada e a 90% das lavouras de feijão. Os prejuízos ainda estão sendo contabilizados e se ao menos parte das perdas deve ou não – e em que medida – ser repassada ao longo da cadeia produtiva de alimentos até chegar ao consumido final.

A chuva tardia no início da colheita e a longa estiagem no período final do cultivo fizeram ruir o sonho de mais de 4 mil agricultores. Eles esperavam produzir mais de 3, 8 milhões de sacas de milho em 2018, repetindo o feito do ano passado, quando colheram quase 250 mil toneladas do cereal e mais de 210 mil sacas de feijão. Paripiranga e Adustina estão, atualmente, entre os 10 maiores produtores de milho da Bahia. Junto com outros 13 municípios da região eles formam ainda a maior área produtora de feijão de inverno do Estado. Costumam colher entre agosto e novembro, período da entressafra nas outras regiões. 

“Este ano foi atípico. A chuva começou muito tarde, muita gente perdeu as sementes e chegou até a replantar. Aí a chuva atrasada não continuou e a perda foi grande”, diz o produtor rural Roberto Santos.

Segundo o secretário de agricultura de Paripiranga, Mayk Pereira, os prejuízos ultrapassam mais de R$ 50 milhões. “Nós fizemos uma estimativa junto com a BahiaTer e com outros órgãos da região. São mais de R$ 50 milhões com os investimentos diretos na agricultura. A quebra de safra prejudica a todos. Toda a economia gira em torno disso. Perda imensa para o comércio, para a feira local, para a geração de emprego”.

A projeção é de que a queda na safra do milho se reflita em vários setores. A produção tem dois destinos principais. Primeiro, o consumo direcionado as fabricas de rações, agroindústrias e indústrias químicas. Depois o consumo dentro das propriedades rurais, destinado ao consumo animal e ao humano. Segundo o IBGE, cerca de 21% é consumido dentro das propriedades, enquanto 79% é comercializado em indústrias e cooperativas.

Junto com a soja, o milho é o principal ingrediente da ração animal, principalmente das aves e dos suínos. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), que reúne as maiores 150 empresas produtoras de carne do país, já anunciou que o aumento estimado de 53% no preço do milho, tende a provocar uma elevação de 15% nos preços das carnes e de outros produtos de aves e de suínos.

A queda na safra registrada no nordeste do Estado já provocou um aumento de cerca de 6% no preço do milho para ração animal para pecuaristas de outras regiões da Bahia.
Já a maioria dos comerciantes, que vendem derivados do cereal, como farinha e amido de milho, evita falar sobre uma possível alta nos preços nas prateleiras. Com as vendas desaquecidas por causa da crise econômica, e a queda no poder de compra da população, muitos receiam assustar ainda mais os consumidores. Mas o repasse dos custos dos fornecedores é dado como certo, não de forma imediata, mas progressiva.

Banco notificado

Os prejuízos ainda estão sendo contabilizados pelas secretarias de agricultura dos outros municípios, mas de acordo com o Banco do Brasil, maior agente financeiro agrícola na região, mais de 1 mil produtores rurais já comunicaram oficialmente as perdas das lavouras. Além de Adustina e Paripiranga, o dado inclui as notificações registradas nas agências bancárias dos municípios de Rio Real e Euclides da Cunha.

Os dois municípios também ficam na região nordeste, são considerados grandes produtores de grãos, e foram igualmente atingidos pelas chuvas irregulares ou longos períodos de estiagem.
Na região entre Rio Real e Itapicuru, os índices de chuva não ultrapassaram os 32 milimetros no mês de julho. O esperado eram mais de 110 milimetros. Era exatamente neste mês que as lavouras de milho estavam na fase do pendulamento, quando a planta precisava de mais água para florescer. 

Produtor rural na região, Alfredo Góes Neto plantou 2.300 hectares do cereal. Ano passado chegou a colher 123 sacas por hectare, mas neste ano perdeu 40% da área plantada. “Esta é a pior seca dos últimos 30 anos em toda esta região dos tabuleiros costeiros. Nunca teve um mês de julho tão fraco de chuva. A flor nem chegou a ser fecundada. A agricultura é isso, dúvida. Mas já estamos pensando no próximo ano”, diz.

Esta região da Bahia, que inclui mais de 30 municípios, é responsável pela chamada terceira safra ou segunda safrinha. É uma das poucas regiões do mundo em que o milho e o feijão são plantados nesta época. Os agricultores cultivam entre abril e novembro, exatamente na entresafra das outras áreas.

A saca do milho, que chegou a custar R$ 28 no mês de janeiro, já está sendo comercializada na região por preços que variam de R$ 32 a R$ 46. “Deve faltar milho lá pelo mês de outubro. Então estes valores devem ter um aumento considerável até dezembro. Além da queda na safra, estamos dependendo da tabela do frete. Contando ainda que Sergipe também perdeu as lavouras”, avalia Alfredo.

Seguro
Os financiamentos agrícolas possuem seguros que cobrem as perdas provocadas por fenômenos naturais, pragas e doenças. Além disso o produtor rural pode pedir a prorrogação da dívida rural. Em nota enviada ao CORREIO, o Banco do Brasil afirma que está trabalhando para oferecer medidas de apoio aos agricultores das regiões identificadas com perdas generalizadas. Mas o agente financeiro ainda não tem uma estimativa de valor do prejuízo, e as indenizações vão ser analisadas de acordo com as normas do Banco Central e dos programas agrícolas oficiais, como o Proagro e Pronaf.

Atlêntico frio

A região onde estão estes municípios abrange um pedaço do sertão, o agreste e a zona da mata. Áreas mais próximas do litoral, conhecidas como tabuleiros costeiros, onde sempre ocorrera mais chuva por causa da proximidade com o oceano. Se nos outros anos a proximidade com o Atlântico ajudou, este ano, não surtiu efeito. Os meteorologistas dizem as chuvas foram menos intensas, exatamente, por causa da temperatura do mar.

“Este ano, não teve El Niño, nem La Niña. O que contribuiu foi a questão das temperaturas do Atlântico e o sistema de alta pressão que manteve as águas mais frias do que o normal. As temperaturas mais próximas da Costa da Bahia também. A umidade do oceano não foi suficiente para formar nuvens e dar regularidade a chuva”, explica o meteorologista Heráclio Alves. “A temperatura precisa estar normal ou acima dela para evaporar a água do oceano e provocar brisa que trazem mais umidade. Tinha vento, mas não tinha umidade”, completou.

Para os próximos meses, a previsão é de maiores períodos de estiagem. “Já estamos no mês de setembro, chegada da primavera. A tendência é de chuva menos intensa a partir de agora. Se vier é fraca. Não é chuva suficiente para a agricultura. Os produtores rurais têm que esperar a outra janela de produção a partir de maio do próximo ano”, acrescenta Heráclio.Conab

Em nota enviada ao CORREIO, a CONAB, Companhia Nacional de Abastecimento, disse que os estoques atuais de milho totalizam 1.250 toneladas. Elas estão distribuídas em armazéns localizados nos municípios de Entre Rios, Itaberaba, Irecê, Ribeira do Pombal, Santa Maria da Vitória e Baixa Grande. No próximo mês, chegarão mais 2.200 toneladas do produto proveniente de Sorriso, no Mato Grosso, para abastecimento das unidades que operam o Programa de Vendas em Balcão.

O Balcão é o programa da Conab que disponibiliza milho para pequenos criadores a preço de atacado. Ainda segundo a Companhia, nesse momento, não há estoque de feijão na sede regional, mas está prevista a compra de cerca de 190 toneladas desse produto para a formação de cestas de alimentos. A CONAB garantiu ainda que para a Bahia, há previsão de produção de 69 mil toneladas de feijão em cores e caupi ou macaçá.

Fonte: Correio 24h

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